quinta-feira, 9 de abril de 2015

Vaidade (Florbela Espanca)

Quero dar meu boa noite de hoje deixando a todos esse lindíssimo poema de Florbela Espanca, uma das mais sensíveis poetisas portuguesas e que eu, particularmente gosto muito. Que tristemente matou-se jovem porque suas angústias mal resolvidas tornaram-se pra ela insuportáveis. Num mundo cada vez mais avesso ao sofrimento como se fosse um câncer - até mesmo aqueles que, de naturais que são, se deveriam notar como inevitáveis e normais, eu não sei o que é pior: Se padecer de tristeza ou nada sentir... Boa noite a todos  


Vaidade
Florbela Espanca


Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada! 

Pão do Dia - Mais vale um Cão vivo do que um Leão morto - Parte 2

Se necessário for complementarmos ao texto de ontem "Mais vale um Cão vivo do que um Leão morto", no qual simbolicamente o Cão representa o comum e trivial e o Leão ao Nobre que se ostenta orgulhosamente em sua própria condição, acrescentaria o seguinte: Que toda forma de nobreza, elevação interior como cultura, conhecimento, habilidades inatas ou adquiridas, e mesmo a espiritualidade, só valem alguma coisa e de fato só têm sentido se de alguma maneira puderem ser traduzidas em alguma forma de vida que se comunique com a vida ao redor, caso contrário, tudo isso será a personificação do leão morto que se cita em Eclesiastes. Em síntese eu diria, como postei recentemente que, de fato não faz tanta diferença a fé que você (e eu) diz professar e nem o requinte de sua doutrina em detrimento de "outras tão rudimentares", assim como também não vale nada - ou quase nada - o sentimento que você tem ou diz ter, pois esses ambos - a fé com que crê e o sentimento com que sente - ambos existem apenas em seu mundo interior e não no mundo objetivo perceptível a todos e não afetam a nada nem a ninguém para além de você mesmo. Outrossim, a única coisa que realmente importa é o que você e eu fazemos, pois isso diz alguma coisa, isso faz a diferença e afeta o universo objetivo à nossa volta. O cão vivo faz assim - não obstante seja cão, na rudimentalidade de sua vida põe a vida em movimento a partir de razões simples que dele emanam ou simplesmente copia, não importa! É claro que viver a vida na intensidade do cão e as qualidades do leão é o nosso mundo ideal. Algo louvável de ser perseguido. Devemos viver a vida com o máximo de nobreza e virtude que pudermos, o que ão podemos jamais é, em nome de tanta virtude nos permitirmos abdicar de viver. 
A mensagem final, eu diria é: Saiamos então das nossas torres de cristal nas quais nos alegramos na inutilidade das nossas nobrezas e vamos para as ruas por onde andam os cães e talvez aprendamos alguma coisa sobre a vida real!   
















quarta-feira, 8 de abril de 2015

Pão do Dia - Mais Vele um Cão Vivo do que um Leão Morto - Parte 1

A passagem que traz essa afirmação categórica está no Livro de Eclesiastes 9:4. Antes de a considerarmos propriamente é importante que nos lembremos de quem a escreveu: Salomão - o homem a quem Deus deu a maior de todas as porções de sabedoria e que conhecia, como ele mesmo dizia, todos os mistérios e ciências, de modo que tal afirmação, vinda de quem veio, evoca a sabedoria mais profunda e não ao que chamaríamos "filosofia de boteco". 
Isto posto vamos tentar dissecar as verdades nela contidas.... Desde logo começamos com uma aparente incongruência entre  a afirmação de Salomão feita de maneira tão (chamaríamos de) pragmática em contraposição ao que temos em mente com relação à toda a Palavra de Deus que nos incita a sermos pessoas nobres, de valor interior e estatura moral.... Ora, tomando como símbolos O Cão - como tipificação do que é trivial, comum e sem valor; e O Leão - como sendo a tipificação da nobreza, do orgulho e da majestade, a afirmação feita em Eclesiastes parece colocar por terra a pregação geral da Palavra, mas veja, só parece! O que se propõe aqui não é absolutamente a demolição de valores como a nobreza interior  e a honra pessoal, colocando em seu lugar as trivialidades e banalidades - simbolizadas pelo cão - mas sim, o enaltecimento da própria vida acima de qualquer outro valor que o homem possua. 
Quando diz que "mais vale / do que" ele está dizendo duas coisas: 
_ Que numa escala quantitativa a vida se sobrepõe a qualquer atributo que está embutido nela própria - isso parece até óbvio - como algum atributo que só pode existir se existir vida poderia ser mais importante que a própria vida? 
_ Que em uma linha de tempo, as virtudes vão parando, uma após a outra enquanto a vida avança pra além de todas elas e, em última análise é o que nos resta

Qual é então a mensagem que Salomão pretendeu nos passar nesta forte afirmação? 
A mensagem é de que não podemos jamais utilizarmos a nobreza como pretexto para abrirmos mão da vida, seja qual for a relação estabelecida entre essas duas forças - a vida sempre estará com a preferência. Poderíamos dar dezenas de exemplo, mas apenas para tomarmo um: O de uma pessoa que, por nobre que se enxergue profissionalmente pelos cursos que fez e o know how que adquiriu ao longo de sua carreira, recusa-se terminantemente a trabalhar numa posição inferior à que ele mesmo se atribuiu como "o mínimo aceitável" e faz isso ao mesmo tempo em que padece de necessidades práticas terríveis, carregado do convencimento de sua nobreza não consegue operar as coisas mais simples da vida. Quando alguém faz isso, mantem-se em sua posição de um leão, porém morto, ao invés de aceitar da vida suas ofertas sem valorar tanto assim as coisas nesses termos. E o cão? desprezível aos olhos desse primeiro, sem qualidades, porém engajado, de modus operandi tosco, mas engajado, sem conhecimentos nem  tanta consciência, mas engajado, se tantas virtudes morais, mas engajado... Esse vai pra vida, vive, aceita a vida e, no fim das contas, é isso que acaba se sobrepondo.
Posições são boas quando significam alguma substância real, caso contrário são apenas a carceragem feita de ilusões para o leão morto.

Pra encerrar, deixo o verso de Calderón de la Barca o qual já citei em outras postagens e que tem tudo a ver com a idéia central de Eclesiastes e que mostra que mandar e reger são apenas posições enquanto que sofrer e padecer são vida de verdade! 

"Já sei que, se para ser o homem, escolher pudera, ninguém o papel quisera do sofrer e padecer; todos quiseram fazer o de mandar e reger, sem advertir e sem ver que, em ato tão singular, aquilo é representar mesmo ao pensar que é viver."            
(Calderón de la Barca)





terça-feira, 7 de abril de 2015

Pão do Dia - Os Fantasmas do Passado (Fp 3: 12-16)

São de censo comum os conceitos a respeito de passado como "O que passou, passou!"; "Águas passadas não movem moinhos"; "Ninguém vive de passado", e tantos outros que poderíamos elencar. Porém, ao mesmo tempo em que todos parecem saber disso ao ponto de poderem ensinar cada um ao seu próximo, o passado continua sendo um fantasma em sua totalidade ou pelo menos em parte dele para a grande maioria das pessoas que eu conheço. E a razão disso pode ser rastreada.

Por que o passado é um fantasma? 
Porque de algum modo está vivo! Seja por situações de pendências que deixamos com pessoas com as quais nos relacionamos - pendências do tipo: ingratidões que cometemos, palavras que foram mal ditas, atitudes e sentimentos que não foram expostos como deveriam ou não ficaram claros como deveriam. Tudo isso faz com que um filme fique passando e passando em nossa mente carregando sempre a mesma esperança de quando assistimos a um filme de Hollywood o qual já vimos 1200 vezes: De que por alguma forma o final será diferente. Sabemos que não será, conscientemente sabemos disso - o roteiro já foi escrito, o filme encenado e as luzes do estúdio apagadas. Todos já estão em suas casas.... Mas em nosso imaginário, ao assistirmos o filme sempre há o fundo de esperança presente porque nos parece que a cena está acontecendo ali, naquele exato momento em que a assistimos. Sabemos que não é assim, mas sentimos como se fosse. 
Da mesma maneira acontece com os filmes que estão em nossas mentes. Eles continuam vivos porque nós o mantemos assim. A diferença fundamental disso para os filmes hollywoodianos é que nestes primeiros nós somos os protagonistas, vilões e coadjuvantes, e isso nos afeta sobremaneira! Se naqueles apenas torcemos por um final feliz que sabemos que não acontecerá, nestes, dada a carga de envolvimento pessoal, nos remordemos sem parar (remorso) na tentativa de mudarmos dentro de nós o que já foi, mas assim como naquele, o da nossa vida também tem um roteiro que já foi escrito e um filme que já foi encenado... e foi o que foi!

O que fazer para exorcizar esses fantasmas:
Paulo fala sobre 4 coisasque constituem o único real e prático caminho (não disse fácil, disse prático):

_ Ele diz: "Não obtive a perfeição!" Saber disso é necessário e reconfortante. Embora lutemos pelo melhor - e devemos mesmo lutar - tudo o que fizemos e continuamos fazendo deve ser posto na perspectiva de seres imperfeitos que também erram quando deveriam acertar. É assim que é.

_ Ele diz: "Uma coisa faço!" Pensar e repensar na mesma cena não é fazer alguma coisa. Se há algo pra fazer, faça. Se não há, entregue nas mãos de Deus e conforme-se simplesmente. Não há o que fazer e o remorso não vai ajudar.

_ O que ele diz que faz: "Esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão!" Embora pareçam dias ações independentes elas são totalmente interdependentes, ou seja, "eu me esqueço porque avanço ao mesmo tempo em que só posso avançar se esquecer. Se não deixar pra trás não avanço e se não avançar não esqueço o passado". E como esquecer o que não se consegue esquecer? O que retorna à memoria como um cheiro? Entregando, entregando e entregando todo pensamento que vier a Cristo para que Ele cuide do que não podemos mais cuidar. Ele é Pai da Eternidade, acessa todos os tempos e todas as coisas;

_ Por fim Paulo fala: "Prossigo para o alvo e para o prêmio" - O prêmio existe, está na frente e não atrás e será nosso independentemente das imperfeições com que erramos no passado desde que nos decidamos a continuar andando em direção a Ele.
Deus não inviabilizou e não desistiu.... E você?





segunda-feira, 6 de abril de 2015

NOVOS PECADOS



NOVOS PECADOS 
  
Pecados são transgressões da lei de Deus, atos humanos que vão contra a vontade divina.
Os pecados capitais se adequaram com as necessidades atuais, cabendo nova interpretação e reflexão para o que é tido como virtude. 
São praticados sem a culpa clássica, com o respaldo da subjetividade de entendimento pessoal, dito bem-estar e necessária publicidade da felicidade constante e repúdio ao negativismo.


Luxúria, agora é tida como valorização do corpo e do ser. Apareça pois você pode! Os mágicos livros de auto-ajuda, estão em alta.
Ira é vista como uma maneira de não guardar raiva. Você é incentivado a colocar pra fora os todos dissabores, não guardar desaforos pois provoca tumor.
Avareza, nesses tempos de instabilidade da economia mundial, é entendida como planejamento financeiro.
Pergunte se alguém tem inveja de outra pessoa e terá a resposta, indignada, que não ou que no máximo tem  “uma inveja boa”, mas que a meta estabelecida é comprar uma casa igual a do amigo. 
Muita gente gosta de relaxar do estresse diário, que nada mais é do que a antiga preguiça.
Gula é fugir da anorexia.
Vaidade, tão grandiosa que precisa ser tratada com atenção especial. Hoje é questão essencial para a felicidade, pessoas precisam amar e adorar elas mesmas acima de qualquer outra.

No vácuo das idéias modernas de pecado e culpa, a atualidade pariu a auto-ajuda para prosperidade, onde vivemos para conquistar o império do sucesso e censura da culpa.
Em meio a tanta subjetividade, temos pecados reais e objetivos que ficam escondidos pela ausência consentida de culpa como o trabalho infantil no Brasil. Pecado que afetará negativamente qualquer evolução de pensamento das gerações futuras. 


"Já sei que, se para ser o homem, escolher pudera, ninguém o papel quisera do sofrer e padecer; todos quiseram fazer o de mandar e reger, sem advertir e sem ver que, em ato tão singular, aquilo é representar mesmo ao pensar que é viver."            

(Calderón de la Barca)

* Extraído do blog Crônicas Metafóricas 

Pão do Dia - Será que Jesus nos tem? (João 10)

Estamos iniciando nossa semana pós Páscoa. Sob o ponto de vista histórico na linha do tempo, este é só mais um dia como outro qualquer, entretanto, sob o ponto de vista espiritual, significando a Páscoa desde a sua instituição "passagem" e, tendo em Cristo o seu significado extraordinariamente dimensionado em ressurreição, é evidente que hoje não pode ser um dia comum. Ninguém que conscientemente vive uma passagem tão drástica quanto a ressurreição e tem consciência disso pode continuar vivendo como se isso fora coisa de somenos.

Isto posto, gostaria de refletir sobre um pensamento muito simples baseado numa afirmação categórica que Jesus fez em João 10: 28-29 dizendo em outras palavras que "aquele que lhe pertence e que está em Suas mãos, não será jamais arrebatado pelo inimigo". Dessa afirmação decorre a reflexão que proponho hoje: 

Será que Jesus nos tem? 
Isso mesmo! Será que Ele nos tem a nós? Nós temos Jesus porque Ele graciosamente entrou em nossas vidas e porque ninguém, em sã consciência não quereria te-lo em seu coração com tudo aquilo que Ele é: vida, amor, paz, eternidade, etc, etc... Termos Jesus é a parte mais fácil que não nos traz qualquer implicação a não ser a sermos pessoas sensatas e minimamente inteligentes. Já dizer que Jesus nos tem muda completamente as coisas, traz implicações existenciais definitivas. Dizer que Jesus é meu, é dizer que Ele se deu a mim. Alguém duvida disso olhando pra cruz? Entretanto, dizer que Eu sou de Jesus significa dizer que eu não me pertenço, que Ele é o meu Senhor, o senhor das minhas vontades, da minha vida e do meu futuro, é dizer que Ele pode sem qualquer explicação fazer da minha vida o que bem quiser assim como o oleiro faz com o vaso de barro que está fabricando. 
Estendendo o mesmo conceito podemos ainda nos lembrarmos do Jesus disse em João 15: 15 que nós somos Seus amigos "SE" fizermos o que Ele nos manda. Voltamos ao mesmo ponto: É correto dizer que Jesus é nosso amigo porque de fato Ele o é, aliás, o melhor que alguém poderia almejar - um amigo que não tem qualquer interesses egoísta em nós, que não coloca condições para nos amar, ajudar e para estar ao nosso lado. Mas a questão é: E nós? somos também seus amigos? A implicação existencial novamente é outra: Dizer que Jesus é meu amigo é saber que posso contar com Ele, dizer que eu sou Seu amigo é dizer que Ele pode contar comigo.... Pode? 

A questão é importante não apenas para filosofarmos a respeito, mas de forma prática porque Jesus colocou de forma explícita: Aquele que está nas minhas mãos.... Aquele que o Pai me deu.... Aquele que me pertence... Ou seja, essa condição de pertencimento a Cristo é também a condição de que Ele nos guardará, atuará em nossas vidas segundo a Sua vontade e, em última análise, de que estaremos para sempre com Ele aonde Ele está!
Fica então a pergunta para a nossa reflexão: 
Será que Jesus nos tem? 



domingo, 5 de abril de 2015

Podcast de Páscoa



O que define a Pascoa é o mesmo que define ser cristão: É o vazio! Cristo esvaziou-se de si mesmo. Seu tumulo ficou vazio. Ele esvaziou a morte e o inferno e, em nós, o corpo do pecado. A ressurreição é o vácuo da história, mas é o enchimento da plenitude de Cristo, de vida a todos os que crêem.... Feliz Páscoa a todos em nome de Jesus!